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De Campo de Ourique a São Domingos de Benfica, vão dois palcos de distância

Grupo Born2Fail, que chegou à final da 1ª edição do Talentos do Bairro, volta a concorrer

De Campo de Ourique a São Domingos de Benfica, vão dois palcos de distância

Em Campo de Ourique, um brasileiro de São Paulo chegou com o violão sem saber que havia um palco à espera. Em São Domingos de Benfica, um menino cantou duas músicas e provou que a idade não impede ninguém de se mostrar. Em ambos os showcases, a mesma certeza: o talento aparece quando lhe dão espaço.


Publicado em 15 de Julho de 2026 at 10:47

Dois showcases, dois territórios com histórias e perfis muito diferentes. No Jardim da Parada, em Campo de Ourique, o palco do concurso Talentos de Lisboa, organizado pela Gebalis e pela Câmara Municipal de Lisboa, atraiu quem passava, quem morava ali há anos e quem simplesmente trouxe um violão para uma tarde de domingo. Em São Domingos de Benfica, a fadista Inês Coito voltou a um showcase pela terceira vez e falou de algo que os palcos e os prémios não conseguem dar. As amizades que ficam.

Jardim da Parada: o quintal do bairro

No Jardim da Parada, em Campo de Ourique, Gustavo Pinheiro chegou com o violão debaixo do braço numa tarde de domingo. Tem 35 anos, é de São Paulo e mora na freguesia há dois anos. Costuma aparecer naquela praça às quartas-feiras com os amigos, mas naquele domingo havia jogo do Brasil mais tarde e era o momento perfeito para trazer o violão sem incomodar ninguém. A praça, diz ele, é “o nosso quintal”. Quando chegou, havia um palco. “Vou tocar no palco”, pensou, e inscreveu-se. Tocou e gostou. “A aparelhagem de som é muito boa, o técnico Gonçalo maravilhoso, deixou em dois segundos tudo muito gostoso de tocar.”

Gustavo já teve uma carreira musical mais profissional no passado e chegou ao showcase sem grandes expectativas. O que espera não é a fama. “Se me proporcionar tocar em outros palcos, se for escolhido, para mim já é muito bom. O que vier a partir disso é maravilhoso.” Para ele, iniciativas como esta têm um valor que vai além do concurso. “Quando Lisboa cria espaço para que esses talentos tenham mais palco cria cultura, e cultura atrai mais gente. É uma roda que gira.”

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Gustavo Pinheiro, candidato ao Talentos de Lisboa, no showcase no Jardim da Parada, Campo de Ourique

Gustavo Pinheiro, candidato ao Talentos de Lisboa, no showcase no Jardim da Parada, Campo de Ourique

Quando Lisboa cria espaço para que esses talentos tenham mais palco cria cultura, e cultura atrai mais gente. É uma roda que gira.

Sobre a vergonha que muitos sentem antes de subir ao palco, falou por experiência própria. “A primeira música você sempre vai estar um pouco nervoso, vai tremer, vai gaguejar um pouco. É normal. Peça uma segunda, porque na segunda você está tranquilo.” E deixou um último pensamento. “A gente não pode ficar com essa ideia de que as pessoas estão julgando. Está todo mundo olhando e achando lindo e achando interessante.”

Junta de Campo de Ourique divulgou

Ana Maria de Campos Pedroso Mateus, presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, esteve presente no Jardim da Parada. A divulgação passou pelas redes sociais e pelo contacto direto com coletividades da freguesia. Sobre o alargamento do projeto a toda a cidade, vê-o como uma extensão natural da missão. “Enquanto no bairro se calhar limitava a visibilidade, com Talentos de Lisboa estende-se mais a oportunidade.”

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Ana Mateus, presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique

Ana Mateus, presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique

Para ela, este tipo de iniciativa tem um impacto que vai além do dia do showcase. Marca a freguesia, valoriza a cultura e pode abrir portas a outras iniciativas. Quanto aos talentos de Campo de Ourique, não tem dúvidas. “Tenho a certeza, temos muitos talentos.”

O showcase contou também com a presença do grupo Born to Fail, representado por Rafaela Barreto. O grupo nasceu no Centro de Artes e Informação do CAV, no Lumiar, de um projeto que quis profissionalizar jovens nas áreas do teatro, da dança e da música. Existe há sete anos, concorreu ao Festival Panos e ao Festival Dona Maria, que ganhou, e participou na primeira edição dos Talentos do Bairro, onde chegou à final. Não venceram, mas saíram de lá com uma perspetiva diferente. “Nós sentimos que vencemos à mesma. Saímos de lá com muitas pessoas a dizerem-nos que somos incríveis, que dançamos muito bem, e isso para nós também valeu muito.”

Sobre o alargamento do projeto, reconhece que a maior concorrência “dificulta um bocadinho”. Ainda não decidiram se voltam a inscrever-se, não por causa do resultado anterior, mas porque têm outros projetos em curso. Se for possível, querem. “Vai ser uma experiência completamente diferente daquela que tivemos e acho que muito melhor.” A quem hesita, a mensagem é clara. “Não tenham medo, não tenham vergonha. Pensem que não estão a competir, mas que vêm mostrar aquilo que fazem todos os dias.”

Momento inesperado em São Domingos de Benfica

Em São Domingos de Benfica, a fadista Inês Coito esteve num showcase pela terceira vez. A vencedora da primeira edição dos Talentos do Bairro tem acompanhado o projeto de perto e o que observa é sempre o mesmo: as pessoas têm vergonha de subir ao palco na rua. “As pessoas sentem-se um bocadinho reticentes em relação aos showcases, mas depois acaba sempre alguém a incentivá-las e acabam sempre por se inscrever, o que é ótimo.”

Para ela, fazer estes showcases por toda a cidade ao longo do mês acaba por juntar muitas pessoas. “Algumas com mais vergonha que outras, mas acabam sempre por perceber que a música é muito mais forte.” O que a surpreende é a diversidade de quem aparece. “Podemos ver várias realidades diferentes, várias pessoas diferentes que se querem unir todas juntas por um só propósito, que é a música, a dança, o mundo da arte.”

Quem receia inscrever-se por timidez ou outros motivos, tem muito a perder: “Não só perde um autoconhecimento, como perde a parte mais bonita que eu levo deste projeto, que são as amizades que fiz durante todo este caminho. Trouxe pessoas bonitas desta iniciativa e fiz deles casa e amigos.”

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A fadista Inês Coito no showcase de São Domingos de Benfica

A fadista Inês Coito no showcase de São Domingos de Benfica

A parte mais bonita que eu levo deste projeto são as amizades que fiz durante todo este caminho.

Profissionalmente, a participação deixou-a mais segura. “Sinto a minha voz um bocadinho mais estável do que era há dois anos. Cantar várias vezes por semana em vários sítios diferentes faz com que me obrigue a desinibir.” E admite que cantar na rua, ao contrário de uma casa de fado onde “ninguém me vê por estar escuro”, continua a ser o maior desafio. “Ver as pessoas a parar e a passar tira-me este nervosismo e sinto que isso tem melhorado bastante.”

Um dos momentos mais inesperados do showcase foi o de Henrique, um menino que subiu ao palco e cantou duas músicas com entusiasmo. Só quando quis inscrever-se é que percebeu que teria de esperar. O concurso só aceita candidatos a partir dos 8 anos. Foi embora sem a inscrição feita, mas não sem ter cantado.

Junta de São Domingos de Benfica no terreno

José da Câmara, presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, fez a divulgação através das redes sociais da junta e por email às associações e clubes da freguesia. A resistência que muitos sentem perante um palco é algo que conhece bem. “É das coisas mais complicadas estar em palco. Falo por experiência própria. Depois com os anos vamos aprendendo.” Admite que também ele nunca teve estas oportunidades. “Estes pequenos grandes palcos podem dar um pontapé para a frente da vida de alguém.”

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José da Câmara, presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica

José da Câmara, presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica

E deixou um apelo a quem ainda hesita: “Deixa isso tudo para trás e aproveita. É uma forma de extroverter o que vai aí dentro de bom e quem sabe se com esse ato de coragem de ir para um palco, a vida não muda para melhor.”

Com 35.000 habitantes na freguesia, as expectativas são altas. “Eu apostaria em mais do que um talento em São Domingos de Benfica. Torço por isso.”

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