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Quatro showcases, uma cidade cheia de surpresas

Rato Chinês, vencedor da 2.ª edição do concurso, no palco do Areeiro

Quatro showcases, uma cidade cheia de surpresas

Showcases no Areeiro, Campolide, Misericórdia e Marvila. E em todos a descoberta de talentos incríveis em cada esquina da cidade.


Publicado em 18 de Julho de 2026 at 08:00

No Areeiro, um vencedor voltou ao palco para convencer outros a arriscar. Em Campolide, um rapper chegou com músicas suas sobre as dores de quem ainda não foi ouvido. Na Misericórdia, dois amigos de 10 anos chegaram juntos e decidiram concorrer em separado para terem mais probabilidades de ganhar. Em Marvila, o showcase integrou-se num encontro de culturas e reuniu muitos dos talentos que já passaram pelo projeto.

No Areeiro, cultura em todo o lado

David Alexandre Chéu Cunha, o Rato Chinês, venceu a segunda edição do Talentos do Bairro, organizado pela Gebalis, depois de ter sido inscrito pelos amigos sem saber. Voltou ao Areeiro como embaixador com uma visão clara do que mudou: “A vontade de voltar a fazer música outra vez.” Está agora a preparar um EP com quatro ou cinco músicas novas, que apresentará em outubro na Biblioteca Municipal de Marvila, com mais duas ou três que “ficaram na gaveta desses tempos e que agora voltaram a ver a luz do dia”.

Sobre o alargamento do concurso a toda a Lisboa, Rato Chinês não vê perda de identidade, mas antes um upgrade: “Houve pessoas que queriam participar, mas como não faziam parte de um bairro gerido pela Gebalis, não tinham esse acesso. Com o Talentos de Lisboa, isso desapareceu.” A quem hesita, fala por experiência própria. “Nós somos os nossos maiores críticos e, muitas vezes, mesmo tendo pessoas a dizer que temos talento, pensamos sempre: está a dizer porque é meu amigo. Mas se num grupo de pessoas todos dizem a mesma coisa, se calhar devíamos explorar essa vertente.”

Pedro Jesus, presidente da Junta de Freguesia do Areeiro, destaca que a freguesia tem talento muito além do bairro municipal do Portugal Novo, “onde já existe muito talento que tem sido potenciado.”

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Pedro Jesus, presidente da Junta de Freguesia do Areeiro

Pedro Jesus, presidente da Junta de Freguesia do Areeiro

Do Bairro dos Atores à Avenida de Roma, há artistas de várias áreas. “Temos muitos artistas, não só músicos, mas também artistas plásticos.” Para ele, a cultura não é um elemento separado da vida da freguesia. “Eu costumo dizer que o nosso projeto autárquico assenta sobre três pilares. O espaço público, o apoio às famílias e a cultura. E a cultura está em todo o lado, em todos os eixos.”

Marisa Lopes foi uma das candidatas do Areeiro. Soube do projeto pela internet, chegou, cantou pela primeira vez em público e saiu satisfeita. “Fiquei contente com as pessoas. Fiquei feliz de me verem cantar, porque há uma primeira vez para tudo, não é?” Se tiver de aparecer nos jornais, admite, “não faz mal, porque é um privilégio.” O que espera que o projeto lhe traga resume-se a três palavras. “Alegria, saúde e muita sorte.”

Em Campolide, músicas de feridas e verdades

Em Campolide, Igor D’Araújo esteve como embaixador. Entre os candidatos, Telmo Saraiva, nome artístico Trevo, 31 anos, conhece o projeto de perto, não como participante, mas como amigo de quem participou. Igor, G-Cash e Don Fran são amigos seus “que se cruzaram muitas vezes na estrada”. Tentou inscrever-se antes, mas ainda não era residente em Lisboa. Agora pôde fazê-lo. A inspiração, diz, “vem de todas as feridas que eu tenho”. A música que apresentou é um instrumental seu, um enaltecer da mulher, com a participação de uma amiga. “Eu acho que o hip-hop ainda é visto um bocadinho como uma imagem não tão querida. Eu quero transmitir que o meu hip-hop são dores que todos nós temos.” O que espera do projeto não é a vitória. “Se calhar terei mais uma pessoa, duas, ou três que oiçam a minha música e se possam identificar. Para mim, como artista, é o que me sabe bem.”

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Igor d'Araújo, embaixador em Campolide

Igor d'Araújo, embaixador em Campolide

Maisa Cachindelo, 28 anos, chegou ao showcase através da presidente de uma associação de apoio a bebés e mães. Já tentara inscrever-se numa edição anterior, mas não pertencia à freguesia certa. A música que escreveu e apresentou é um processo de autodescoberta, a forma que encontrou para falar da sua própria verdade, da orientação sexual que demorou a aceitar e do percurso feito até se sentir inteira. “Chegou a minha vez de brilhar”, disse, citando uma canção angolana que a acompanhou nesse caminho. O que procura no projeto não é necessariamente a vitória. “O meu objetivo é conseguir representar a minha verdade. Só a participação já significa imenso.”

Tomás Carneiro, vice-presidente da Junta de Freguesia de Campolide, vê o alargamento como uma ampliação natural do alcance. “É mais fácil ter um amigo ou um conhecido músico à volta que venha participar com algo mais próximo da junta de freguesia do que mais circunscrito localmente.” Quanto aos talentos de Campolide, não tem dúvidas. “Não há como não sair um talento de Lisboa. É uma freguesia muito viva, com muito sangue, com muita vontade de fazer.”

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Tomás Carneiro, vice-presidente da Junta de Freguesia de Campolide

Tomás Carneiro, vice-presidente da Junta de Freguesia de Campolide

Não há como não sair um talento de Lisboa. É uma freguesia muito viva, com muito sangue, com muita vontade de fazer.

Na Misericórdia, até os turistas subiram ao palco

Carla Almeida, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, explica que a divulgação passou pelas redes sociais, por emails às associações e pelo método que diz funcionar melhor na freguesia. “Falámos com o padre para anunciar. É mais o boca a boca.” Sobre o alargamento do concurso, defende que a oportunidade deve ser igual para todos. “As nossas pessoas merecem também ter uma oportunidade de subir ao palco. Somos todos moradores, somos todos munícipes, temos de ter as mesmas condições que qualquer um. Não podemos ser discriminados pela nossa condição social, crença, religião ou opção sexual.”

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Carla Almeida, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia

Carla Almeida, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia

As nossas pessoas merecem também ter uma oportunidade de subir ao palco. Somos todos moradores, somos todos munícipes, temos de ter as mesmas condições que qualquer um. Não podemos ser discriminados pela nossa condição social, crença, religião ou opção sexual.

A Misericórdia tem, segundo Carla Almeida, uma relação particular com a cultura noturna que torna o equilíbrio mais delicado. “Temos um excesso de produção noturna e animação que às vezes é confundida com cultura.” A junta aposta em aulas de teatro, de poesia, um coro de rock e vários projetos sociais e culturais. “Queremos mostrar à nossa população que a cultura é boa.”

Pedro Niza, 10 anos, e António Oliveira, também com 10, são amigos há sete anos e chegaram juntos ao showcase. Decidiram concorrer em separado para terem mais probabilidades de ganhar, com um acordo informal entre eles. “No final dividimos a recompensa, sabe, quando nós ganharmos.” Pedro toca guitarra há cinco anos. António é baterista. Ainda não têm uma banda, mas o plano existe. “Antes dos 18 anos, ainda temos tempo.”

O Open Mic atraiu quem passava, turistas americanos e franceses incluídos, entre quem apenas quis cantar e quem decidiu inscrever-se.

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O Open Mic no território da Junta de Freguesia da Misericordia atraiu quem passava

O Open Mic no território da Junta de Freguesia da Misericordia atraiu quem passava

Em Marvila, um encontro de culturas

Em Marvila, o showcase teve uma dimensão especial. A Junta de Freguesia já tinha planeado o Primeiro Encontro de Culturas de Marvila quando foi convidada pela Gebalis para receber um showcase. Ricardo Ribeiro, chefe de Divisão de Ação Social, Educação, Cultura e Desporto da Junta de Freguesia de Marvila, conta como as duas iniciativas se fundiram. “Pensámos em juntar as duas coisas. Como temos muitos talentos e a Inês Coito foi também vencedora, tentámos juntar tanto o showcase como os talentos que já participaram no Talentos do Bairro no nosso encontro de culturas.” O resultado foi o Primeiro Encontro de Culturas e Talentos de Marvila, com o Rato Chinês, Inês Coito, a sua irmã Sara, Márcio Furtado e Charlemagne Brutus todos presentes. Sara Coito pôde finalmente inscrever-se este ano: quando a irmã fadista ganhou a primeira edição, ela não vivia num bairro municipal.

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Joaquim Brito, presidente da Junta de Freguesia de Marvila, Marlene Almeida da Gebalis e Ricardo Ribeiro, chefe de Divisão de Acão Social, Educacão, Cultura e Desporto da Junta de Freguesia de Marvila

Joaquim Brito, presidente da Junta de Freguesia de Marvila, Marlene Almeida da Gebalis e Ricardo Ribeiro, chefe de Divisão de Acão Social, Educacão, Cultura e Desporto da Junta de Freguesia de Marvila

O palco dos artistas de Marvila cresce ainda mais. Não fica só circunscrito num bairro, mas fica também como palco maior.

Sobre o alargamento do projeto, Ricardo Ribeiro vê-o como uma oportunidade de crescimento para os artistas da freguesia. “O palco dos artistas de Marvila cresce ainda mais. Não fica só circunscrito num bairro, mas fica também como palco maior.” Marvila é, recorda, uma freguesia com um leque cultural diverso: fado, hip-hop, rap, rancho tradicional, e comunidades de várias origens que coexistem. “Nós queremos bairros felizes e cidades felizes.”

Entre os candidatos de Marvila, Maria Inês, 15 anos, canta fado desde os 4. Tem aulas no Clube Lisboa Amigos do Fado, em Chelas, onde aprende técnica e respiração. Inscreveu-se este ano porque adiou demasiado. “Era sempre para o ano, até que este ano foi: é agora.” Quer chegar à final, mas se não chegar, quer que o projeto lhe traga “amizades novas, uma experiência nova”. Para ela, já ter entrado “foi a melhor coisa do mundo.”

Sónia Jardim, 43 anos, chegou ao showcase a caminho de casa, viu o que estava a acontecer e inscreveu-se. Não sabia que o concurso tinha mudado de nome, mas isso não a teria impedido de participar na mesma. Já tinha estado nas duas edições anteriores do Talentos do Bairro sem passar da primeira fase e a determinação mantém-se. “Temos de tentar”, disse, admitindo que treme de nervos, mas que isso não a impede. “Devem tentar porque temos de lutar pelos nossos sonhos e ultrapassar a vergonha toda.”

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