Este site usa cookies para melhorar a navegação. Ao navegar no website concorda com o seu uso. Para saber mais leia a nossa Política de Cookies.

Três freguesias, uma cidade que não pára de surpreender

Igor d’Araújo, um dos veteranos do concurso, a atuar na Praça do Intendente

Três freguesias, uma cidade que não pára de surpreender

Em Arroios, Igor D’Araújo voltou ao Intendente para convencer outros a arriscar. Na Ajuda, uma associação com dez anos de história recebeu o showcase no bairro que chama de aldeia no coração da cidade. Em Alcântara, uma banda formada numa aula de português do 12.º ano chegou para se inscrever.


Publicado em 7 de Julho de 2026 at 10:00

Três showcases, três territórios com histórias muito diferentes. A Praça do Intendente, em Arroios, com as suas quase cem nacionalidades. O Bairro 2 de Maio, na Ajuda, onde toda a gente conhece toda a gente. O Jardim Avelar Brotero, em Alcântara, onde além de cantores e dançarinos houve crianças a declamar poesia. Em todos eles, o mesmo palco portátil, o mesmo microfone aberto e a mesma pergunta implícita: quem está ali à espera de ser ouvido?

Em Arroios, cem nacionalidades à procura de palco

Igor D’Araújo chegou à Praça do Intendente como referência, não como concorrente. Ficou em segundo lugar na segunda edição dos Talentos do Bairro e este ano está do outro lado, a mostrar o que mudou desde então. “Abriu muitas portas, deu muita visibilidade, muitas pessoas que não me conheciam passaram a conhecer aquilo que eu faço, que é música”, disse. Não vai voltar a concorrer, mas o papel que tem agora vai além do de embaixador: “Acho que é mais uma referência, para a malta ver que realmente vale a pena e que pode mudar a vida de uma pessoa. Se os Talentos do Bairro abriram portas para mim, agora os Talentos de Lisboa devem abrir muito mais portas para os próximos concorrentes.” Para quem ainda hesita, fala por experiência própria. “Eu era a pessoa mais envergonhada do mundo e hoje em dia já estamos a pisar palcos e a tentar motivar muitas pessoas.”

Imagem do artigo: Três freguesias, uma cidade que não pára de surpreender
João Jaime Pires, presidente da junta de freguesia de Arroios.

João Jaime Pires, presidente da junta de freguesia de Arroios.

João Jaime Pires, presidente da Junta de Freguesia de Arroios, vê na multiculturalidade da freguesia uma vantagem. “Arroios pode ser um desafio porque é uma junta muito multicultural e aqui pode haver gente de outros pontos do mundo”, disse, referindo que a freguesia tem perto de cem nacionalidades diferentes. “Quem sabe se não temos aqui uma surpresa de gente da Ucrânia, do Leste, da Índia, do Paquistão, da China, a mostrar talentos que nós desconhecemos.”

Arroios pode ser um desafio porque é uma junta muito multicultural e aqui pode haver gente de outros pontos do mundo

Para ele, a arte e a música têm um papel que vai além do entretenimento. “O mundo precisa de canções, de música, de arte para combater outras coisas que hoje são tristes.”

Bárbara, 22 anos, foi uma das candidatas do showcase de Arroios. Canta desde criança, fez um ano de aulas de canto que lhe ajudaram a amadurecer a voz, e tocava na rua quando era mais nova. Parou durante uns tempos. Voltou. “Hoje fico mais contente com a minha voz do que ficava há uns anos. Sinto que a tornei mais minha, mais eu”, disse. O concurso é uma oportunidade para retomar o que sempre quis. “Há um ano que pensei em voltar a fazer disto mais o centro da minha vida e se calhar esta é a oportunidade para o começar a fazer.”

Na Ajuda, o bairro que funciona como aldeia

Sandra Alves, responsável da Associação dos Amigos Moradores do 2 de Maio, recebeu o showcase com entusiasmo. A associação tem dez anos, porta aberta todos os dias, e é o ponto de encontro de um bairro que descreve como uma aldeia. “Se alguém não vê a minha mãe dois ou três dias, vem-me perguntar porque é que ela não apareceu.” Nascida e criada no bairro, Sandra trabalha numa multinacional, mas dedica as horas livres à associação, que vai de explicações a grupos de canto intergeracionais, passando por dança criativa e parcerias com o Polo Universitário da Ajuda. Não é a primeira vez que a associação participa: um dos grupos já esteve no concurso Talentos do Bairro [como se chamava antes do formato Talentos de Lisboa] e volta a inscrever-se este ano, com música e caixas de madeira como instrumentos. “É possível fazer coisas boas com pouco.”

Sobre o alargamento do projeto a toda a cidade, Sandra faz uma analogia com as marchas populares. “Tal como a marcha gerou uma onda de orgulho e de pertença à volta da marcha da Ajuda, acho que é o mesmo que vai trazer os Talentos de Lisboa. Se de cada bairro for uma ou duas atuações, vai gerar esta onda de apoio dos bairros aos seus representantes.” E já está a fazer contas. “Provavelmente vamos ter que organizar mais autocarros para acompanhar e ir assistir.”

… a oportunidade de as pessoas mostrarem aquilo que sabem fazer melhor em várias áreas

Marina Penedo, vogal da cultura da Junta de Freguesia da Ajuda, explicou que a junta chegou às coletividades e associações locais através de reuniões e comunicação direta com a comunidade. Sobre o alargamento, vê uma vantagem clara: dá “a oportunidade de as pessoas mostrarem aquilo que sabem fazer melhor em várias áreas.” Quanto à possibilidade de sair da Ajuda um talento de Lisboa, não tem dúvidas. “Acho que sim, porque eles gostam e têm competências para isso.”

Imagem do artigo: Três freguesias, uma cidade que não pára de surpreender
Madalena Silva, 17 anos, atuou no showcase da Ajuda e participou na 1.ª edição dos Talentos do Bairro

Madalena Silva, 17 anos, atuou no showcase da Ajuda e participou na 1.ª edição dos Talentos do Bairro

Entre os candidatos do showcase da Ajuda estavam Madalena Silva, 17 anos, que esteve presente como embaixadora, mas não resistiu a inscrever-se de novo. “Foi uma experiência diferente porque nunca tinha participado em nada assim”, disse. Começou a cantar com a mãe a caminho da escola e nunca parou, apesar de ainda ter vergonha. A Academia dos Talentos, novidade desta edição para os semifinalistas, parece-lhe particularmente útil. Isis Filipa Marques, 10 anos, soube do concurso por uma amiga que a chamou. Apareceu vestida a rigor, como manda a etiqueta das danças de salão que pratica em Caselas. “Quero ganhar e divertir-me imenso.” Mariana, 14 anos, aprendeu a dançar pelo TikTok e inscreveu-se ali mesmo. “Não tenhas vergonha e vem atrás do teu sonho”, transmitiu a quem hesita. Daiane tem 8 anos, dança desde os 4 e descobriu a ginástica sozinha. Queria uma bicicleta, admitiu, mas “quem ganhar, ganhou, merece.”

Em Alcântara, uma banda nascida numa aula de português

No Jardim Avelar Brotero, em Alcântara, o showcase contou com uma presença inesperada: a Seaborn, uma banda de três elementos, Guilherme Matias, Gonçalo Dias e Tomás Costa, formada numa aula de português do 12.º ano. Guilherme e Gonçalo estavam aborrecidos na aula quando começaram a pensar numa banda. O nome veio de Luís de Camões, “nascidos do mar”, em inglês. Mais tarde juntou-se o Tomás, vindo de uma academia de música. No último ano lançaram um EP de seis músicas e fizeram o primeiro concerto em maio, na Fábrica da Pólvora, em Barcarena. Chegaram a Alcântara porque Guilherme pertence à tuna da Universidade Lusófona e atuou no showcase de Alvalade, onde ficou curioso com o projeto. “Viemos com a esperança de simplesmente entretermos as pessoas que estão no jardim a divertirem-se e também que nos conheçam.” A inscrição ficou feita no próprio dia.

Imagem do artigo: Três freguesias, uma cidade que não pára de surpreender
Márcio Furtado, que já tinha estado em Alvalade, regressou a Alcântara num segundo showcase

Márcio Furtado, que já tinha estado em Alvalade, regressou a Alcântara num segundo showcase

Precisam às vezes deste pequeno impulso, deste pequeno incentivo para dar o primeiro passo, sair da sombra e apresentar-se

Hugo Malcato, tesoureiro da Junta de Freguesia de Alcântara, representou a junta no evento. A divulgação passou pelas coletividades, escolas, redes sociais e canal de WhatsApp da junta, e o presidente aproveitou a romaria do fim de semana anterior para anunciar o showcase. Sobre o alargamento, defende que o projeto deve ir além dos bairros. “Temos que fazer isso muito mais abrangente, em vez de nos focarmos apenas num bairro em particular e pensar numa freguesia como um bairro.” Quanto aos talentos de Alcântara, a convicção é total. “Há muitos. Precisam às vezes deste pequeno impulso, deste pequeno incentivo para dar o primeiro passo, sair da sombra e apresentar-se.”

Imagem do artigo: Três freguesias, uma cidade que não pára de surpreender
A Seaborn, uma banda de três elementos, atuou no showcase de Alcântara

A Seaborn, uma banda de três elementos, atuou no showcase de Alcântara

Isabela, 16 anos, soube do showcase pelo Instagram da freguesia. Estava a caminho de casa da avó quando a tia a chamou do jardim. Tem aulas de canto e toca piano há cinco anos. O que espera do concurso é simples. “Mostrar o meu amor pela música.” O alargamento não a preocupa, embora reconheça que “é um pouquinho mais competitivo.” “Acho que é positivo, porque assim cada um tem a oportunidade de mostrar o seu talento”, concluiu.

Regressar à Página Inicial

Organização

Apoio