Este site usa cookies para melhorar a navegação. Ao navegar no website concorda com o seu uso. Para saber mais leia a nossa Política de Cookies.

Três territórios, uma cidade cheia de sonhos

Um dos grupos de cheerleaders que estavam em Lisboa para o campeonato europeu subiram ao palco no showcase no Parque das Nações

Três territórios, uma cidade cheia de sonhos

Três showcases, três territórios de Lisboa muito diferentes. Em Santa Clara, Don Fran voltou ao bairro onde cresceu. No Parque das Nações, até algumas jovens cheerleaders estrangeiras subiram ao palco. Em Carnide, uma fadista de 84 anos inscreveu-se sem hesitar


Publicado em 3 de Julho de 2026 at 09:00

No bairro na associação socio-cultural PER 11, em Santa Clara, o rapper Don Fran regressou a casa. O showcase aconteceu junto à Associação de Moradores, uma das âncoras culturais do bairro. No Parque das Nações, a fadista Inês Coito recebeu candidatos que chegaram de passagem, alguns vindos de outros países para um campeonato europeu de cheerleading. Em Carnide, no Mercado Municipal do Bairro Padre Cruz, Rafa Moreira, uma das finalistas da edição passada, voltou para motivar quem ainda não tinha dado o passo.

Em Santa Clara, o bairro que criou Don Fran

Don Fran regressou à associação socio-cultural com uma missão pessoal. Falou com amigos de longa data, convenceu alguns a inscreverem-se e tem a certeza de que alguns dos finalistas desta edição virão de Santa Clara. Havia pessoas que queria há muito ver neste palco, mas que antes não podiam participar por não morarem nos bairros municipais. Com o alargamento a toda a cidade, isso mudou. “Hoje finalmente vamos dar jus àquilo que eu sempre sonhei, que é vê-los neste palco e noutros palcos”, disse. Entre eles está o sobrinho Rui, que se inscreveu este ano pela primeira vez. E apela aos potenciais candidatos que ainda hesitam: “No ano passado, estava onde tu estás agora a inscrever-te. É um caminho que cada um vai fazendo.”

Temos uma grande associação que desenvolve um excelente trabalho com a comunidade e é o palco ideal para termos aqui atividades.

Imagem do artigo: Três territórios, uma cidade cheia de sonhos
Carlos Manuel Castro, presidente da junta de freguesia de Santa Clara

Carlos Manuel Castro, presidente da junta de freguesia de Santa Clara

Carlos Manuel Castro, presidente da Junta de Freguesia de Santa Clara, justificou a escolha do local: “Temos uma grande associação que desenvolve um excelente trabalho com a comunidade e é o palco ideal para termos aqui atividades.” Para o autarca, o valor destas iniciativas está na mobilização que geram. “O facto de as pessoas começarem a ter objetivos e terem de se esforçar para batalhar para os alcançar é muito importante.”

Quanto aos talentos da freguesia, não tem dúvidas. “Não só acredito, como tenho a certeza. Temos aqui muitos talentos, como ficou provado há dois anos com o Don Fran”, concluiu.

Imagem do artigo: Três territórios, uma cidade cheia de sonhos

Entre os candidatos de Santa Clara estava Rui Filipe Caetano Jesus, conhecido artisticamente como Skody RF, que participou na primeira edição, mas foi eliminado na primeira eliminatória. Ainda assim, não desistiu. Desde então lança músicas todos os meses e tem uma editora própria com a qual apoia jovens do bairro que querem gravar. Voltou porque o novo nome do concurso o motivou. “ Participei na primeira edição do Talentos do Bairro. Agora é o Talentos de Lisboa: como é novo, eu quero participar outra vez.” O seu objetivo é vencer.

Miguel Matos, 40 anos, nome artístico Gémeo Fantasma, escreve músicas sobre causas sociais, desde os bombeiros à violência doméstica, passando pelo cancro que lhe levou o pai. “Entrava em desafios para fazer número. Agora estou a entrar para ganhar.”

Fabiana veio do bairro das Olaias com um grupo que ensaia todas as quintas-feiras. “Sentimo-nos felizes, ainda mais quando dançamos todas juntas, que somos como uma família.”

Imagem do artigo: Três territórios, uma cidade cheia de sonhos

No Parque das Nações com cheerleaders no palco

No Parque das Nações, o Rock in Rio na véspera e o campeonato europeu de cheerleading a decorrer em simultâneo na zona marcaram o dia de formas inesperadas. Carlos Ardisson, presidente da Junta de Freguesia, viu nisso uma oportunidade. “É um ponto de muita passagem. Quem passar pode aproveitar e experimentar, demonstrar o seu talento, e ou fica satisfeito só por ter participado, ou quem sabe pode trazer alguma coisa para o futuro.”

Há muitos anos sonhei que podia ser presidente da junta, esforcei-me, dirigi-me nesse sentido e acabei por estar nestas funções. As pessoas não devem desistir dos seus sonhos.

Imagem do artigo: Três territórios, uma cidade cheia de sonhos
Carlos Ardisson, presidente da junta de freguesia do Parque das Nações

Carlos Ardisson, presidente da junta de freguesia do Parque das Nações

Sobre o alargamento do projeto, Carlos Ardisson não tem dúvidas: “Quando há talento, ele deve ser mostrado e não deve ser só desta parte ou daquela.” A quem hesita, deixa a sua lição de vida: “Há muitos anos sonhei que podia ser presidente da junta, esforcei-me, dirigi-me nesse sentido e acabei por estar nestas funções. As pessoas não devem desistir dos seus sonhos.”

Foi de passagem que Diana Gandra, 36 anos, chegou ao palco. Tinha vindo ao Rock in Rio na véspera e aproveitou o dia para passear. Viu o palco, gosta de cantar, inscreveu-se. “Gostava de fazer vida disto, mas é impossível”, admitiu. Espera pelo menos ter “alguma projeçãozinha” e que a contactem.

A quem hesita, deixou um conselho simples: “A vergonha limita muitas coisas. O arriscar será sempre a melhor opção.”

Imagem do artigo: Três territórios, uma cidade cheia de sonhos
No Parque das Nações, a fadista Inês Coito subiu ao palco e recebeu candidatos que chegaram de passagem ao local

No Parque das Nações, a fadista Inês Coito subiu ao palco e recebeu candidatos que chegaram de passagem ao local

Julieta Sousa, 60 anos, estava sentada num banco quando uma das parceiras do projeto a abordou. Cantou uma canção do Marco Paulo e não tem dúvidas de que vai chegar longe. “Com um bocado de talento, vamos ganhar.”

Quirino Madureira, 32 anos, chegou por acaso e ficou. O seu talento é imitar cantores. A inscrição ainda estava em aberto, mas o entusiasmo não: “Só quero cantar porque gosto. Mas se houver uma oportunidade, temos de aproveitar.”

O momento mais inesperado foi o dos grupos de cheerleaders que estavam em Lisboa para o campeonato europeu. Subiram ao palco no Open Mic e quando lhe perguntaram o que diria a alguém que quisesse participar, Idia, 9 anos, porta-voz do grupo, respondeu que, para ela, é uma competição muito importante, em que os candidatos se podem divertir e mostrar os seus talentos. A partir daí, o céu é o limite. “Do whatever you want”, concluiu em inglês.

Em Carnide, a coragem não tem idade

No Mercado Municipal do Bairro Padre Cruz, em Carnide, Susana Cruz, presidente da Junta de Freguesia, começou por explicar porque o alargamento do concurso faz sentido numa freguesia muito dividida por bairros. “Temos muitos bairros, não só sociais, mas depois temos a freguesia toda dividida por bairros. É sempre a nossa ambição juntar.” Susana Cruz acredita muito no impacto deste tipo de iniciativa na comunidade. “É a sensação de que há quem venha até eles e lhes dê a oportunidade de mostrarem quais são as suas capacidades, os seus talentos e a esperança de poderem ser vistos de uma forma diferente. Quiçá fazer carreira”, disse.

No ano passado já houve um grande talento em palco. Infelizmente não ficámos em primeiro lugar, mas tivemos a possibilidade de dar voz àquela menina.

Imagem do artigo: Três territórios, uma cidade cheia de sonhos
Susana Cruz presidente da junta de freguesia de Carnide

Susana Cruz presidente da junta de freguesia de Carnide

Carnide tem um historial neste concurso, e Susana Cruz não o esquece. “No ano passado já houve um grande talento em palco. Infelizmente não ficámos em primeiro lugar, mas tivemos a possibilidade de dar voz àquela menina.” A referência era a Rafa Moreira, a própria que esteve presente no showcase como embaixadora.

Nascida e criada no Bairro Padre Cruz, Rafa chegou à final da edição anterior depois de, na primeira tentativa, ter ficado de fora e pensado em desistir. “Percebi que talvez o estilo que estava a cantar não era o que se identificava com a minha voz e troquei.” Voltou com nome artístico diferente, estilo diferente, e chegou à final. A experiência transformou-a. “Diria mesmo que não era capaz, mas quando vi que sou capaz, trouxe-me muita autoconfiança”, contou.

Imagem do artigo: Três territórios, uma cidade cheia de sonhos
Nascida e criada no Bairro Padre Cruz, Rafa inscreveu-se pela segunda vez no concurso com o objetivo de ganhar

Nascida e criada no Bairro Padre Cruz, Rafa inscreveu-se pela segunda vez no concurso com o objetivo de ganhar

Este ano inscreve-se de novo com um objetivo claro: “Ganhar, ganhar, ganhar sempre.” Sobre a Academia dos Talentos, vê-a como uma oportunidade para quem, como ela, aprendeu sozinho. “Ter uma ajuda é sempre melhor”, admite.

Catarina, 31 anos, participou na edição anterior em grupo. Desta vez vem a solo, com uma coragem que diz ter demorado 31 anos a encontrar. “Basicamente guardei isto há 31 anos, porque não acreditava em mim.” Para ela, o concurso é também uma forma de crescer com os outros. “A outra pessoa pode ter mais talento que eu, mas eu vou beber do sumo dela e ela vai beber do meu”, explicou. Sobre a Academia de Talentos, não hesita. “Eu digo ‘bora a tudo, vamos aparecer, vamos aprender e é para isso que estamos aqui.”

Fábio Alexandre Flores e Silva chegou ao showcase por indicação do seu produtor, Igor D’Araújo, um dos vencedores da segunda edição. Estava nervoso antes de subir ao palco, mas o nervosismo passou assim que cantou. “Fiquei contente, fiquei com aquele orgulho de conseguir”, contou. Compôs uma música em ritmo cigano, da sua autoria, para apresentar.

A candidatura mais inesperada de Carnide foi a de Judite Lino, 84 anos, fadista com canal no YouTube, passagens pela SIC e pelo programa do Goucha, e terceiro prémio num concurso da Gebalis em 2008. Queria inscrever-se no Talentos do Bairro nos anos anteriores, mas foi bisavó e não teve tempo. Quando recebeu o papel da Gebalis com a informação sobre o Talentos de Lisboa, decidiu. “Este ano vou.” Veio de Lamego há décadas, tem um filho de 61 anos nascido em Santa Clara e vive sozinha no Bairro da Horta Nova. A coxa dói um pouco, mas isso não a detém: “Um comprimido, menos comprimido, vamos andar.”

Regressar à Página Inicial

Organização

Apoio